Herança e Poder: De Conceição no sertão à capital – Como os Bragas moldaram a política paraibana

A Paraíba guarda histórias de famílias que construíram impérios políticos ao longo de décadas, influenciando decisões e destinos de cidades e do estado. Uma das mais emblemáticas é a família Braga, originária de Conceição, no Vale do Piancó, cujos membros atravessaram gerações de mandatos e disputas eleitorais.
O patriarca Wilson Leite Braga (in memorian) e sua esposa Lúcia Braga (in memorian) foram protagonistas de uma trajetória marcada por poder, polêmicas e forte presença no Sertão e na Capital. “Wilson Braga, na juventude, era de esquerda. No início dos anos 60, ele participou do encontro internacional da juventude estudantil e comunista em Praga, na Checoslováquia”, recorda o professor Jonas Duarte, mestre em Economia pela UFPB e doutor em História Econômica pela USP, ao portal Fonte83.

Jonas Duarte, professor do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Apesar de suas inclinações iniciais, Wilson migrou para a Arena após o golpe de 1964, consolidando-se como deputado federal de grande votação e, posteriormente, governador da Paraíba (1983‑1986). “O grande diferencial dele era a liderança no Sertão. Conceição, Piancó, Santa Fé e Monte Orebe eram áreas onde ele tinha mais de 70% de aprovação. O Projeto Canaã, de construção de barragens, consolidou seu prestígio”, explica Duarte.
Já Lúcia Braga destacou-se como a primeira mulher eleita deputada federal na Paraíba, com mandatos de 1987 a 1995 e de 2003 a 2007, além de deputada estadual entre 1999 e 2003. Ela se tornou referência em assistência social, criando programas semelhantes ao que hoje conhecemos como Bolsa Família. “Ela ganhou enorme prestígio na periferia de João Pessoa, tornando-se conhecida como ‘mãe dos pobres’”, afirma o professor.
O casal navegou por alianças políticas complexas. Em 1985, divergiu na eleição presidencial indireta: Wilson apoiou Paulo Maluf e Lúcia, Tancredo Neves. Em 1988, Wilson foi eleito prefeito de João Pessoa e, em 1989, ambos migraram para o PDT de Leonel Brizola, apostando na ascensão da esquerda nacional, mas enfrentaram desafios e derrotas, como na disputa para governador em 1990.
A influência da família Braga estendeu-se também a outros membros. Vani Leite Braga, irmã de Wilson, foi prefeita de Conceição e deputada estadual por três mandatos consecutivos, enquanto Alexandre Braga, sobrinho, assumiu dois mandatos como prefeito do mesmo município, mantendo a presença política do clã.
“Mesmo após derrotas políticas nos anos 90 e a morte do casal em 2020, devido a pandemia da Covid-19, os Bragas permanecem como símbolo de poder regional. Eles combinaram política, assistência social e mídia local, consolidando uma dinastia que marcou profundamente a história da Paraíba”, conclui Jonas Duarte.
O legado da família Braga evidencia como alianças, obras públicas e estratégia eleitoral moldaram décadas da política paraibana, revelando a complexa relação entre poder e herança.
A série Herança e Poder do portal Fonte83 segue no próximo fim de semana, explorando outras famílias que deixaram e continuam deixando suas marcas na política da Paraíba.







