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Polícia não descarta investigar ligação de agentes públicos com traficantes na PB

A organização criminosa que movimentou mais de R$ 500 milhões com tráfico de drogas, e foi desarticulada pela Polícia Civil da Paraíba nesta quinta-feira (26), também é investigada por “infiltração” no Poder Público. Em entrevista ao Portal MaisPB, o delegado Elton Vinagre, citou que ainda não há elementos suficientes que apontem o envolvimento de políticos, mas não descartou a possibilidade de investigar agentes públicos.

“Se realmente tiver algo, se a gente realmente tiver elementos que a gente possa aprofundar e criminalizar agentes públicos que foram cooptados, enfim, corruptos, por conta dessa organização criminosa, aí sim a gente vai investigar. Mas, assim, o que eu posso dizer é que, a preço de hoje, a gente não está investigando agente público nenhum”, complementou Elton.

A investigação revelou que os policiais identificaram a utilização de uma empresa de fechada que mantinha contratos públicos com administrações municipais do Sertão paraibano para lavar dinheiro.

“A gente identificou durante a investigação a existência realmente de uma empresa que planeou algumas licitações públicas para prestar serviço de coleta de resíduo em lixo em alguns municípios do Sertão paraibano. E essa empresa, a gente conseguiu identificar um volume muito grande de transações bidirecionais e multidirecionais com alguns investigados de relevância da ORCRIM. Então, a gente conseguiu mapear que é bem provável que exista realmente essa infiltração da organização criminosa, por meio de empresas, para adentrar no serviço público com contratos públicos”, explicou o delegado que coordena as investigações contra o grupo criminoso.

Além da Paraíba, os criminosos fechavam contratos públicos por meio de uma empresa da organização sediada em Goiás. Para Polícia Civil da Paraíba, o empreendimento era utilizado para “justificar” operações bancárias milionárias.

Entenda

A Operação Argos desarticulou uma organização criminosa bloqueando mais de R$ 100 milhões em conta bancárias e prendendo o  “maior traficante paraibano” em condomínio de luxo em São Paulo, na capital. Ele foi o principal distribuidor de drogas da Paraíba e de estados vizinhos. Os principais entorpecentes fornecidos era cocaína e maconha.

Foram cumpridas ordens judiciais nos estados da Paraíba, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Mato Grosso. Na ação foram bloqueados mais de R$ 104 milhões em contas bancárias de 199 alvos. Além do sequestro de 13 imóveis de luxo e de 40 Veículos, incluindo carros esportivos e frotas de transporte, avaliados em mais de R$ 10 milhões.

O cerco ao gigante

A investigação teve gênese em meados de 2023. Naquela ocasião, a DRACO e forças parceiras iniciaram uma sequência de apreensões recordes de carregamentos de entorpecentes em território paraibano. O cruzamento de dados de inteligência revelou que todas as cargas pertenciam a um único proprietário: JAMILTON ALVES FRANCO, vulgo “CHOCÔ”.

A partir da análise dos aparelhos celulares apreendidos e da quebra de sigilos bancários, a Polícia Civil descortinou uma estrutura criminosa de poder financeiro abissal, que operava como uma verdadeira holding do crime interestadual.

Vida pregressa e conexão com a cúpula do PCC

O líder da organização, JAMILTON ALVES FRANCO (“CHOCÔ”), é natural de Cajazeiras/PB, mas migrou para o estado de São Paulo ainda na juventude. Sua trajetória no crime não foi linear; dentro do sistema prisional paulista, Franco ascendeu socialmente no submundo ao estabelecer conexões diretas com o Núcleo “Sintonia” do Primeiro Comando da Capital (PCC).

A “Sintonia” é a cúpula máxima que dita as diretrizes operacionais e disciplinares da referida facção. Ao integrar-se a essa engrenagem de poder, “CHOCÔ” obteve a logística necessária para se tornar o principal hub de distribuição de cocaína e maconha para o Nordeste.

Sua ascensão financeira foi meteórica: o paraibano, que outrora era um criminoso comum, passou a ostentar uma vida nababesca, com viagens luxuosas, veículos esportivos de alto padrão e uma rede de imóveis de luxo, tudo financiado pela dependência química de milhares de paraibanos.

Cronologia das apreensões

A investigação foi pavimentada por apreensões que somam prejuízos que superam os R$ 100 milhões para a Organização Criminosa (ORCRIM).

Apreensões relevantes:

• Maio de 2023 (Patos/PB): Apreensão de 150kg de cocaína escondidos em um caminhão Scania. Prejuízo: R$ 27 milhões.

• Junho de 2023 (Cajazeiras/PB): Apreensão de 400kg de drogas (380kg de maconha e 20kg de cocaína). Prejuízo: R$ 6,8 milhões.

• Outubro de 2023 (Conceição/PB): Apreensão recorde de 1 tonelada de drogas. Prejuízo: R$ 46 milhões.

• Dezembro de 2024 (Patos/PB): Interceptação de 30kg de drogas. Prejuízo: R$ 1,5 milhão.

• Fevereiro de 2025 (São José de Piranhas/PB): Apreensão de 80kg de cocaína pura com selo “Tio Patinhas”. Prejuízo: R$ 10 milhões.

• Setembro de 2025 (Patos/PB): Apreensão de 50kg de entorpecentes. Prejuízo: R$ 1 milhão.

Operação Argos

O nome da operação remete ao gigante mitológico Argos Panoptes, o guardião de cem olhos que nunca dormia totalmente.

A ofensiva mobiliza um efetivo histórico de mais de 400 policiais civis e conta com o suporte do GAECO/MPPB, forças especializadas como o GOE, GOC, UNINTELPOL, Coordeam, as Delegacias de Repressão a Entorpecentes (DRE-JP e DRE-CG) e Delegacias estratégicas da 1ª, 2ª e 3ª Superintendências. No estado de São Paulo, a operação contou com o apoio fundamental da Polícia Civil paulista, por intermédio do DENARC/PCSP, do DEIC de São Bernardo do Campo/PCSP e do DEIC de Piracicaba/PCSP, além da colaboração das Polícias Civis da Bahia e Mato Grosso.

Arquitetura da organização criminosa

A ORCRIM era estruturada em núcleos profissionais com dezenas de integrantes identificados, separados nos Núcleos Gerencial e Núcleo Paraíba, sendo eles:

Transporte: Utilização de carretas de transportadoras lícitas para camuflar drogas em cargas lícitas ou veículos de apoio.

Varejo Operacional: Subnúcleos na Paraíba que pulverizavam a droga para o consumidor final.

Financeiro/Lavagem: Um esquema sofisticado de integração de capitais que movimentou cerca de meio bilhão de reais desde 2023.

Operadores de Destaque na Lavagem:

• Giovanna Parafatti: Ex-bancária com profundo conhecimento do sistema financeiro. Movimentou mais de R$ 15 milhões através de uma holding familiar e da empresa de fachada G Parafatti S Administrativos. Utilizava familiares para pulverizar recursos e adquirir veículos esportivos para a cúpula da ORCRIM.

• Naiara Batistelo: Médica formada na Bolívia e atuante no Mato Grosso. Atuava como um “hub” de liquidez na fronteira, recebendo mais de R$ 10,9 milhões em 29 meses. A suspeita é que seu histórico acadêmico na Bolívia facilitou sua cooptação como “laranja financeira” no comércio transfronteiriço de cocaína.

A Infiltração em Licitações Públicas:

A investigação revelou um braço perigoso da ORCRIM: a tentativa de lavagem de dinheiro através de contratos públicos.

• AF Amaro Construções (Pombal/PB): Recebeu quase R$ 3 milhões em empenhos públicos em 2024 para serviços de esgoto e lixo, sem possuir funcionários registrados. O dinheiro público era usado para irrigar o tráfico de drogas liderado por Luciano Moraes.

• Empresa de Goiás: Com apenas um funcionário, transacionava milhões com o narcotráfico da Paraíba e possuía sócios envolvidos em crimes licitatórios em Minas Gerais.

Diligências e mandados judiciais

A Operação ARGOS cumpre mandados em 13 cidades: João Pessoa, Campina Grande, Areia, Alagoa Nova, Patos, Pombal, Sousa, Cajazeiras (PB); São Paulo, São Bernardo do Campo, Hortolândia (SP); Cândido Sales (BA) e Nova Santa Helena (MT).

Resumo das Medidas Judiciais:

• 44 Mandados de Prisão Preventiva (32 na PB, 10 em SP, 1 na BA, 1 no MT).
• 45 Mandados de Busca e Apreensão.
• Bloqueio de R$ 104.881.124,34 em contas bancárias de 199 alvos.
• Sequestro de 13 Imóveis de luxo.
• Sequestro de 40 Veículos, incluindo carros esportivos e frotas de transporte, avaliados em mais de R$ 10 milhões.

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